Garota escuridão

Diferente. Para falar a verdade, eu não sei o que é ser diferente, mas dizem que é algo bom. Eu gostaria de ser diferente.

Neutro. Meus sentimentos são nulos, é como uma grande cortina que rompe o véu de minha virtude que já não mais existe.

Cérebro. Odeio ter cérebro, não queria pensar. Raciocinar é um afronta para a raça humana, coisas ruins saem de lá, coisas que nos destrói aos poucos. Pensar é se auto-quebrar até não sobrar mais nada a não ser você mesmo e sua própria confusão.

Esperança. Ela é um espaço vazio para a morte. Esperar e pensar são verbos que fazem parte de um ciclo vicioso. Esperar nunca termina, frequentemente o ser humano estúpido terá de esperar para ter algo e isso é horrível.

Vida. Algo sem sentido até eu fugir para debaixo da cama — o lugar onde ninguém me entende e ninguém me acha, mesmo assim é o local onde me encontro e me despeço de minhas confusões. E é para lá que eu vou, para a escuridão.

Fabricada para o fracasso, construída para a destruição, era impossível contorná-la. Somente ela sabia o que era nascer para o ódio, florescer para o mal, frutificar a violência. Ela era o tipo de menina que se isolava de todos em busca de uma solução que ela mesma sentia por dentro, algo que jamais poderia ser compreendido, transformado. Ela não tinha cura, nasceu com uma doença terrível que ela costumava chamar de Doces Ilusões da Morte. Novamente, somente ela conhecia o poder de matar a si mesma para estar pronta para ferir os outros. Não, ela não era uma bomba-relógio como as pessoas nomeavam alguém pronto para virar fumaça. Para ela, era somente um conjunto profundo de ossos e músculos, uma vergonha de ser humano.

Toda manhã se olhava no espelho com aquela pequena e frequente lágrima. Chorar era fácil, sentir mais fácil ainda. Tatuou a lágrima bem na parte inferior de seus olhos para simbolizar sua solidão. As paredes faziam muito sentido, bem como os livros, a música, a cama, as conversas solitárias, tudo.

Tudo era nada e o nada era, tudo.

Seu último suspiro foi na noite passada debaixo da cama, um lugar quente e silencioso. Um lugar escuro. Ela adorava a escuridão porque, segundo ela, era a origem de sua vitalidade, motivo pelo qual mantinha-se de olhos abertos vendo a solidão perpassar silenciosamente diante de seus olhos. E foi para a escuridão que ela se lançou. Ela não morreu, passou a viver. A escuridão era vida, era paz, era racional, era promissor. Tudo dela vinha de lá. De lá era veio, para lá ela voltou.

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